domingo, 10 de janeiro de 2010

Líderes mundiais, assistam à Avatar

A 15ª Conferência das Partes (COP 15), realizada pela ONU, chegou ao seu fim na sexta-feira, 18 de dezembro, com um resultado aquém do esperado. Durante duas semanas, o mundo voltou-se para o Bella Center, em Copenhague, na expectativa do fechamento de um acordo de redução das emissões de gases agravadores do efeito estufa produzidas pela ação humana. Levando em consideração o fato de que o planeta passa por uma crise ambiental sem precedentes na história da humanidade, causada por um modelo vigente de desenvolvimento ecologicamente predatório, a estréia mundial da mega-produção Avatar no mesmo dia do término das negociações serve de consolo para aqueles que esperavam a elaboração de um acordo mais efetivo. Mesmo tratando-se de uma ficção, quem sabe o longa não serve de exemplo e inspiração para um maior compromisso dos líderes mundiais na COP 16?

A trama conta a história de Jake Sully (Sam Worthington), um fuzileiro naval paraplégico. Ele é enviado para uma missão especial em Pandora, um planeta dotado de florestas tropicais parecidas com a amazônica. A colônia terráquea lá instalada se ocupa do garimpo do minério raríssimo e valioso unobtanium, visto como a solução para a crise energética da Terra. Porém, a extração esbarra no ar do planeta, tóxico para o organismo humano e nos Na’vi, os humanóides azuis de três metros de altura que habitam Pandora. A cultura dos nativos respeita todas as formas de vida, baseando-se na crença de que todos os seres da natureza fazem parte de uma grande rede de troca de energias. A missão de Jake consiste em transferir sua mente para o corpo de um Na’vi clonado, o chamado avatar, para explorar o ambiente do planeta e entender o seu funcionamento. Ao perambular com seu novo corpo azulado de aparência felina pelas montanhas flutuantes, o fuzileiro conhece Neytiri (Zoe Saldana), uma nativa por quem se apaixona. O conflito é ampliado quando os investidores resolvem eliminar os obstáculos para a obtenção do minério e dão início a uma guerra com os habitantes de Pandora, visando devastar a tribo de humanóides, localizada exatamente sobre a maior concentração de unobtanium existente no planeta. Completam o elenco Sigourney Weaver, Michelle Rodriguez, Joel Moore, Peter Mensah, Lola Herrera, Matt Gerald, além de CCH Pounder, Wes Studi, Giovanni Ribisi e Laz Alonso.

O diretor canadense James Cameron afirmou na estréia do filme em Londres que Avatar “é uma metáfora, não tão politizada como alguns gostariam, sobre como tratamos nossos recursos naturais”. Durante a história, a câmera faz seqüências sedutoras da natureza e dos nativos de Pandora, exibindo suas crenças, paralelamente ao seu relacionamento de perfeito equilíbrio com o meio ambiente e de respeito com a resiliência do planeta, ou seja, a sua capacidade de recuperar o seu estado original.

Não se pode deixar de citar o marco que o filme pode representar para o mercado dos efeitos especiais. Várias das tecnologias utilizadas por Cameron foram desenvolvidas especialmente para a megaprodução. Avatar contou com a parceria da empresa de efeitos especiais Weta, de Peter Jackson. A companhia foi a mesma que deu vida para o personagem Gollum, de O senhor dos anéis (2001/2002/2003) e para o gorila de King Kong (2005). A técnica de captura de ação – na qual os movimentos e expressões dos atores são captados por sensores e reproduzidos digitalmente – foi aperfeiçoada especialmente a pedido de Cameron. O diretor afirmou não querer animação e sim interpretação em seu filme. O resultado são cerca de 2 horas e 40 minutos com gigantes azuis de expressões extremamente humanas. Visando o máximo de veracidade possível, Cameron contratou Paul Frommer para criar o dialeto falado pelos Na’vi. O lingüista se baseou em sonoridades da Indonésia, línguas de tribos africanas, e até de índios americanos e da Polinésia.

O resultado de tantos investimentos pesou no orçamento total, que beira os 500 milhões de dólares. O filme possui cópias em IMAX e 3D, modelo de exibição que vem crescendo nos últimos anos em animações, na busca da recuperação do público perdido para o mercado de DVDs. Avatar está sendo encarado como a primeira vez que a reprodução em três dimensões é utilizada com qualidade em filmes com atores e ações reais, fato que pode representar uma revolução na maneira de se fazer cinema ao redor do mundo.

James Cameron começou o planejamento do longa em 1995. Em 1998, após o sucesso estrondoso de Titanic (1997), tentou começar o projeto, porém esbarrou na tecnologia existente na época, ainda incapaz de dar vida com perfeição aos habitantes de Pandora. Suas experiências anteriores com efeitos especiais de ponta foram O segredo do abismo (1989) e O exterminador do futuro 2 (1991). O diretor teve que esperar pelo desenvolvimento da técnica de captura de ação até 2005 para começar a realização da nova mega-produção.

A expectativa para a estréia está sendo tamanha, que o diretor já afirmou ter idéias para a produção de duas seqüências do filme. Os projetos dependem da bilheteria gerada por Avatar, que precisa gerar lucros suficientes, justificando o desenvolvimento de uma franquia. Mesmo assim, tudo indica que as seqüências vêm por aí, pois levando em conta o fiasco na COP 15, os líderes mundiais vão estar ansiosos para melhorar suas imagens públicas, priorizando o investimento em projetos dotados de mensagens ecologicamente corretas, exatamente como a dos azulões de Pandora. Ficção ou metáfora, o fato é que as salas de cinema da Dinamarca e do mundo estarão lotadas após a martelada final no Bella Center.

Por Vinícius Valente em www.saraiva.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário